Um texto da Isabelle publicado na revista Enfoque
TRANSFORMANDO O DESERTO EM OÁSIS
Como a maioria dos habitantes de cidades grandes, andamos geralmente estressados, tensos, aflitos, correndo de uma atividade para outra, sem intervalo para avaliar se estas tarefas que enchem nossas agendas são realmente prioritárias. Precisamos separar um tempo para sair da rotina agitada e desgastante de nossas vidas e encontrar em nossos corações a fonte de água viva capaz de nos libertar e gerar transformações significativas na nossa perspectiva existencial. O maior milagre que Deus realiza não é mudar as nossas circunstâncias, mas levar-nos a enxergá-las com o seu olhar amoroso, paciente, acolhedor, cheio de esperança e paz. Ou seja, mudar a nós mesmos: nosso olhar, nossas prioridades. Em vez de correr atrás de reconhecimento, tentando agradar as pessoas, ou de nos esconder para impedir que elas nos machuquem, somos convidados a deixar Seu amor suprir nossas carências e dissipar nossos medos.
No afã de sermos amados e valorizados, temos investido muito no nosso desempenho familiar e profissional e nos vários papéis que assumimos. Porém, nossa alma continua carente de um amor incondicional que só podemos encontrar em Deus. Nosso ativismo desenfreado acaba gerando um deserto em nós e ao redor de nós. Os relacionamentos se tornam superficiais, funcionais, azedados por expectativas irreais, cobranças e desencontros. Tentamos fugir do sentimento de inadequação com mais ocupações enquanto os meios de comunicação geram novos medos com sua avalanche de notícias ruins e novas necessidades, artificialmente produzidas, que aumentam a nossa frustração.
Uma inquietante sensação de não-preenchimento transparece sob as nossas vidas repletas, mascarando o tédio, o ressentimento e a depressão. O tédio se manifesta quando indagamos se o que fazemos tem uma importância real. Ficamos ressentidos porque sentimo-nos usados, manipulados, explorados. A depressão emerge quando nos perguntamos: “Será que a minha vida vale a pena?” Estes sentimentos levam à solidão que constitui o núcleo central do nosso sofrimento. A tentativa de nos agarrar ao outro para que supre as nossas carências só pode levar ao fracasso e intensificar nosso sentimento de isolamento.
Deus nos chama para desfrutar do único amor capaz de preencher este vazio. Nosso deserto interior irrigado por este amor se transforma num jardim cheio de vida, flores, perfumes e água cristalina. Nele podemos encontrar o nosso verdadeiro lar. A presença do Pai afetuoso, acolhedor, protetor e provedor é em si fonte de alegria e paz. Construir nele a nossa identidade, de modo que Ele se torne o centro da nossa vida, nos capacita a enfrentar qualquer tormenta. Desenvolver uma intimidade silenciosa com Deus transforma a nossa solidão em solitude. Os sofrimentos e as lutas que encontramos na nossa peregrinação não abalam a nossa confiança, pois esta não depende de livramento, mas da percepção da companhia do Espírito consolador de Deus em meio a esses sofrimentos.
O deserto é essencial para desconstruir imagens distorcidas de Deus e de nós mesmos. Na solitude e no silêncio, caminhamos da busca das bênçãos de Deus para a busca do próprio Deus e do falso self para o nosso self verdadeiro. Construímos o falso self através dos padrões que desenvolvemos para sermos amados e para fugir da dor. Neste lugar de despojamento, quebrantamento e humildade, experimentamos a cura das nossas ilusões e a libertação de relacionamentos escravizantes.
Ao encontrar o caminho que leva do deserto à Fonte de Águas Vivas descobrimos uma segurança interior que lança fora o medo e nos permite acolher a vida de peito aberto, com seu potencial de alegrias e tristezas. Em qualquer situação, temos condição de retornar a este centro da nossa vida, pois nada pode separar-nos do amor de Deus. Nossa força e nossa serenidade num mundo tão assustador não estão baseadas em nós mesmos, mas no Espírito que habita em nós.
Conhecendo o caminho, podemos guiar outras pessoas para fora do deserto de suas expectativas equivocadas.
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